
Durante grande parte da história da medicina, a fisiologia humana foi interpretada a partir da atividade coordenada dos sistemas biológicos pertencentes ao organismo humano. Avanços recentes em microbiologia, genômica e biologia de sistemas têm ampliado essa perspectiva ao demonstrar que a fisiologia humana emerge da interação contínua entre o hospedeiro humano e comunidades microbianas associadas.
Essa visão tem estimulado novas interpretações sobre saúde, doença crônica e adaptação biológica, contribuindo para uma compreensão mais integrada dos sistemas vivos.
O organismo humano abriga uma ampla diversidade de microrganismos que participam ativamente de funções biológicas essenciais. Esses ecossistemas microbianos influenciam processos metabólicos, imunológicos, neuroendócrinos e inflamatórios, interagindo continuamente com o organismo hospedeiro.
Sob essa perspectiva, a fisiologia humana não pode ser compreendida apenas pela análise isolada do genoma humano. A interação entre múltiplos sistemas biológicos passa a ser reconhecida como componente fundamental da organização funcional do organismo.
O conceito de Sistema Humano Complexo Multigenômico propõe que a fisiologia humana seja compreendida como resultado da interação dinâmica entre diferentes conjuntos genéticos coexistentes, incluindo o genoma humano e os genomas microbianos associados.
Essa abordagem interpreta o organismo humano como um sistema biológico integrado, no qual processos fisiológicos emergem da comunicação contínua entre diferentes níveis de organização biológica. O foco não está apenas nos componentes individuais do sistema, mas nas interações que conectam esses componentes e permitem a manutenção da estabilidade funcional.
Tradicionalmente, a saúde foi frequentemente interpretada como ausência de doença. A perspectiva do Sistema Humano Complexo Multigenômico sugere uma ampliação dessa interpretação, compreendendo a saúde como um estado adaptativo estabilizado, resultante da interação contínua entre diferentes componentes biológicos.
Nessa abordagem, a estabilidade fisiológica emerge da capacidade do sistema em organizar respostas adaptativas frente às demandas internas e externas do ambiente.
A mesma lógica permite reinterpretar diversas condições crônicas como estados biológicos estabilizados alternativos. Sob essa perspectiva, a persistência de determinadas condições pode refletir padrões adaptativos sustentados ao longo do tempo, resultantes da interação entre fatores genéticos, metabólicos, imunológicos, neuroendócrinos e microbiológicos.
Essa interpretação não substitui os modelos fisiopatológicos tradicionais, mas amplia sua compreensão ao incorporar a dinâmica adaptativa dos sistemas biológicos complexos.
A perspectiva multigenômica oferece novas oportunidades para a investigação translacional ao integrar conhecimentos provenientes da microbiologia, fisiologia, imunologia, metabolismo, neuroendocrinologia e biologia de sistemas.
Essa abordagem favorece a construção de modelos explicativos mais amplos para compreender fenômenos relacionados à adaptação biológica, estados fisiológicos estáveis e respostas sistêmicas complexas.
No Instituto AuBento, essa linha conceitual contribui para a integração de diferentes áreas de investigação, incluindo fisiologia adaptativa, mecanismos horméticos, regulação neuroendócrina, microbioma humano e sistemas biológicos complexos.

Gaspary JFP, Lopes LFD, Gaspary FP, Lopes EG, Edgar AL, Camara EP and Camara AG (2026) Stabilized adaptive
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